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Terrores Tropicais - Parte 2: O Sádico Mundo do Zé do Caixão

O festival de cinema Motelx e a Cinemateca Portuguesa recuperam dois clássicos absolutos do terror latino-americano – ambos a serem exibidos no dia 1 de setembro. Um deles é o mexicano “El Vampiro” (1957), realizado por Fernando Méndez, o outro traz o satânico Zé do Caixão no primeiro filme com o ícone criado por José Mojica Marins, “À Meia-Noite Levarei sua Alma”.

Anedotas contemporâneas

Um facto anedótico ocorrido no início deste ano demonstra por si o quanto José Mojica Marins, criador do mítico Zé do Caixão, transcendeu a um início de extrema miséria e insegurança para inscrever o seu nome na história. Com 81 anos, experienciou o facto de tornar-se viral na internet. O motivo: uma foto onde, ao que tudo indicava, Zé do Caixão tinha-se convertido... à religião evangélica!

Seria possível? O homem que inventou o satanismo no cinema brasileiro? Bom, ao que parece nada disto aconteceu: quem foi "batizada" na referida igreja foi a esposa do ator/realizador; conforme desmentido da própria instituição...



Sórdido, imundo e satânico

Os baixíssimos orçamentos com os quais Marins tentava dar vida ao seu alter-ego nunca permitiram grandes voos visuais - mas em termos de vilania moral o personagem foi longe.

"À Meia-Noite Levarei sua Alma", lançado em 1963, trazia a história de um coveiro capaz de atos de uma infâmia inacreditável. Ele vivia numa pequena localidade não identificada do interior do Brasil, onde conseguia a façanha de ser temido e odiado por todas as razões e mais algumas: ultraviolência, assassinatos, violações, pactos demoníacos e crueldade generalizada. A sua autoconfiança só começa a ser abalada, no entanto, quando "forças do além" parecem conspirar contra ele...



Epopeias e telenovelas

Tudo chegou num sonho - num período complicado da sua vida: depois de um fracasso retumbante com a sua segunda longa-metragem ("Meu Destino em tuas Mãos"), ele tentava arranjar recursos para produzir um filme policial. Numa noite sonhou que uma imagem diabólica dele próprio vinha buscá-lo da cama e arrastá-lo através das campas de um cemitério até o local da sua própria cova. Acordou assustado, não conseguiu mais dormir; interpretou como um aviso e abandonou o filme que incluía criminosos e perseguições.

A realização do projeto foi, por si só, uma epopeia. Conforme contam os seus biógrafos em “Zé do Caixão – Maldito, a Biografia”, André Barcinski e Ivan Finotti, o cineasta abriu mão de tudo o que tinha; num gesto de drama de telenovela, disse à esposa que pensava em matar-se se não conseguisse concretizar o projeto! Resultado: eles ficaram sem casa e a mulher foi viver com os pais; a seguir ele vende toda a mobília - incluindo a própria roupa. Ficou com duas peças.

O lançamento do filme proporcionou a Marins alguns dos momentos mais felizes neste período de angústias: num belo dia, deu com filas enormes para ver o seu filme! Infelizmente não ganhou muito dinheiro, pois a penúria era tal que vendeu os direitos antes do projeto estrear. Mas esse foi apenas o primeiro capítulo da história do homem que atingiria os mercados internacionais, onde se tornaria o Coffin Joe…



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