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«Psycho II»: a psicose de uma continuação esquecida

A heresia das heresias … uma impensável sequela de Psycho em plena década de 80, aquela que viria ser definida como os anos de expansão do slasher movie, e sabendo que Hitchcock já nos havia deixado “há tempos”, camuflar uma das suas obras-chaves num arquétipo do popular subgénero de horror … era por si um anúncio aterrorizante. 23 foram os anos passados desde a sequência terrífica no chuveiro, aquele ataque cortante a Janet Leigh que o Cinema nunca mais esqueceu, que por sua vez abre esta continuação, uma “entrada em grande” ao “fantástico mundo de Norman Bates”, o psicopata que se instalou como um pioneiro do seu próprio modelo.

Com Anthony Perkins retornado ao seu papel mais célebre, Bates é aqui um “homem novo”, reabilitado após 20 anos de tratamento num hospital psiquiátrico. Segundo a opinião médica, o psycho está pronto para o exterior, mas o mundo que conhecera, alterou efetivamente em duas décadas. Violento, luxurioso e obscuro, esta sociedade transformou-se psiquiatricamente mais atormentada que o nosso “antagonista”. Este retrato quase geracional faz ponte com um curioso thriller de Richard Fleischer, See No Evil (1971), cuja abertura impele no espectador uma maligna presença que parece aguardar em cada esquina, a violência abraçada pelo Mundo em perfeita dicotomia – venerar como julgar – e um dos seus “filhos” a percorrer essas ruas da “amargura” com uma sede sanguinária.

Em Psycho II, as tentações encontram-se também elas em cada recanto à mercê de serem consumadas, mas Norman Bates resiste a essa influência, a esse vórtice anárquico. Ao contrário de muitos dos seus congéneres, o espectador não pretende ser cúmplice dos mais sanguinários atos. Ao invés disso, desejamos que Bates permaneça fora desses devaneios tão tentadores. Nesse sentido, Psycho II é uma contra-natura da própria expansão em que poderia previsivelmente inserir-se. É um caminho tormentoso que espelha uma sociedade perto da violência e que anseia estar longe dela, assim como a mente de Bates que constantemente cede aos vícios do seu profundo “eu”.

Para além de Perkins no seu precioso papel, existe outro retorno, o da atriz Vera Miles, a antiga “heroína” agora convertida numa obcecada vigilante, o outro lado do duelo de “forças” a ser motivado por esse constante enraizamento da brutalidade social, desafiando os antigos parâmetros morais que estariam bem presente na obra de 60. Por sua vez, Hitchcock mantém-se presente, obviamente não como o realizador, mas o seu espírito quase incontornável parece vingar-se na conceção deste projeto. O então realizador, Richard Franklin, apercebeu-se do peso do legado, descartando a reinvenção, e render-se a “tiques” deixados pelo mestre ao serviço de apoio estilístico a um filme que, por forças obscuras, fantasia em emancipar-se.


Segundo Quentin Tarantino, a sequela é superior ao tão referenciado clássico. Confirmar tal afirmação soa a atentado, mas é bem verdade que com este segundo filme, tendo a consciência do impensável, existe uma aposta em deslocar as personagens para a modernidade, ao invés da ação. Eis um estudo, uma obra sacrificada pela maldição da “sequelite”; porém, a merecer a redescoberta o quanto antes, mesmo sendo vitima do esperado whoddunit que marca com toda a força o cinema de “facaria” da década de 80. Passaram-se 33 anos, ainda continua a ser incompreendido ... por quanto tempo?



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