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Gonçalo Tocha (É na Terra não É na Lua): o cinema como experiência-limite

Gonçalo Tocha: o cinema como experiência-limite

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“É na Terra não É na Lua”, documentário de Gonçalo Tocha que estreia em Portugal em 29 de março, é o resultado final do esforço de um cineasta fascinado com a ideia de conhecer e registar visualmente a vida de um dos mais remotos pontos de Portugal, a ilha do Corvo – longínqua e distante até mesmo para os habitantes de São Miguel, ilha também açoriana que o cineasta lisboeta visitava com alguma frequência. Depois de quatro anos de trabalho e um custo que, para além dos € 15 mil concretos, é impossível de contabilizar, o filme causou sensação no Doc Lisboa de 2011, onde ganhou o prémio máximo e esgotou as três sessões de exibição do filme. Às vésperas do lançamento comercial do seu trabalho, Gonçalo Tocha conversou com o c7nema sobre a experiência e sobre a sua visão do cinema. 

A aventura e o cinema como experiência-limite


Uma das premissas essenciais de “É na Terra não É na Lua” é deixar que o processo de realização do filme seja por si o fator determinante no resultado final, em detrimento de um planeamento minucioso. Conforme relata Gonçalo, o trabalho de campo partiu, não de um argumento definido, mas de pressupostos – premissas que estabeleciam os equipamentos que seriam utilizados, quantas pessoas iam fazer parte da equipa, a maneira de se transportar até o Corvo. “Aposto tudo na rodagem do filme, aposto tudo no ato de fazer. Por isso sou eu a filmá-lo e não outra pessoa”, diz Tocha que, para fazer o filme, fez quatro viagens à ilha – uma de avião e três de barco, e juntou em torno de 180 horas de registos ao longo dos quatro anos.

Neste sentido, o realizador está em sintonia com alguns cineastas que ele cita como fonte de inspiração – “cineastas que eu assisto e que me dão vontade de filmar”. São realizadores invariavelmente envolvidos em aventuras de pesquisa de campo: o norte-americano Robert Kramer, um cineasta “nómada” que defendia a ideia da câmara como uma extensão de si próprio, Jean Rouch, um dos mais importantes téoricos e realizadores franceses do chamado “cinema direto”, que pressupunha o registo da realidade “tal como ela é”, o vulcanólogo Haroun Tazieff, dedicado à exploração documental dos vulcões e o intrépido realizador alemão Werner Herzog – personagem de algumas epopeias cinematográficas tão intensas como seus próprios filmes. “Todos esses autores estavam de alguma maneira envolvidos na ideia de um cinema como experiência-limite”, afirma. 

Desta forma, uma vez inserido como um estrangeiro e a sua câmara na vida de uma comunidade onde cada pessoa tem o seu lugar e a sua função definidas, Tocha está também recetivo a um diálogo, a uma transformação vinda de fora. “Eu sou modificado pelo que me é contado. Tudo pode acontecer. Tudo é possível”, diz. 
 
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A história perdida da Ilha do Corvo


Um dos aspetos da Ilha do Corvo que fascinava Gonçalo era a sua história, a capacidade de sobrevivência de uma comunidade que durante séculos teve que fazer tudo por conta própria, sem esperar qualquer ajuda vinda de fora. Da comida ao lazer, tudo tinha que ser providenciado pelos próprios habitantes da ilha. Esse fator determinou o caráter da população do Corvo – a qual, segundo o cineasta, revela “diferenças abissais” em relação a outras comunidades açorianas.

Apesar de não ser um filme histórico, esse aspeto de registo documental é importante e o cineasta lamenta no final do filme que um dos habitantes do Corvo tenha destruído 40 anos de um diário pessoal sobre as atividades da ilha que costumava apontar. “A ideia também era recuperar um pouco de uma história que está mais ou menos perdida, que está cheia de buracos para ser preenchidos, cercada de mitos, o que também nos permite fantasiar”, observa.

Os documentários e o futuro


Devidamente distribuído e divulgado, Gonçalo Tocha acredita nas hipóteses dos documentários junto a um público alargado. No caso de “É na Terra não É na Lua”, ele relembra a experiência do Doc Lisboa, com sessões esgotadas e até mesmo espectadores que “chegaram a ver duas vezes o filme” – eventualmente contrariando a perspetiva de que as três horas do filme dificultam a sua absorção. Mas o cenário na época do festival também era outro, uma vez que “o filme foi muito falado na altura, mas agora é diferente, com um público mais disperso, não sei como será”, questiona.

Para o futuro, Gonçalo Tocha não avança com nada de muito concreto – conta apenas que existem propostas para duas curta-metragens. O realizador brinca com o momento atual: “A filmagem de ´É na Terra não É na Lua’  demorou muito, quando acabou eu estava ‘morto’. Agora estou à espera de renascer!”. Por fim, questionado sobre a hipótese de um dia realizar um filme de ficção, ele diz que “só o tempo dirá”
 


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