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«The Last Family» vence 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

The Last Family torna-se no grande vencedor da 10ª edição do Lisbon & Estoril Filme Festival. O filme do polaco Jan P. Matuszynski conquista o Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre, enquanto que The Sand Storm, de Elite Zexer, recebe a menção honrosa. O júri da Competição Oficial foi composto pelo cineasta Jerzy Skolimowski, que foi homenageado no festival, as atrizes Marthe Keller e Valentina Lodovini e o artista visual André Saraiva.

O mais recente trabalho de Paul Verhoeven, Elle, que tem arrecadado elogios por onde passa, foi o escolhido pelo público para o respetivo Prémio. Em relação às curta-metragens, The Sleeping Giant, de Laura Samani (Centro Sperimentale de Cinematografia, Itália), triunfa o Prémio, enquanto  que Paul Est Là, de Valentina Maurel (INSLA, Bélgica), recebe uma menção honrosa. O júri era composto pelos realizadores Daniel Rosenfeld e Lola Peploe e pelo ator Stanislas Merhar.

«Christine» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Antonio Campos repesca um dos episódios mais trágicos da televisão norte-americana - o suicídio em direto da pivô e jornalista Christine Chubbuck - para apurar as causas que levaram esta mulher a cometer ato tão grotesco.

A composição desta personagem misteriosa deve-se muito a Rebecca Hall que subjuga-se a este tormento psicológico num filme que aposta desde cedo na iminência da catástrofe. Obviamente, que o espectador sabe como terminará esta aventura pessoal, assim como um certo filme de James Cameron que "flutuou" nos box-office em 1997, mas o aqui em causa não é um filme válido pelo seu desfecho, e sim, um episódio recorrido em decadência humana, uma tragédia grega que joga o meta-palco da sua criação.  

Campos sempre teve um "fraquinho" por personagens torturadas, absorvidas por um ambiente em total decomposição, assim como o destino destas. Rebeca Hall cria em Christine um derradeiro duelo intrínseco entre uma réstia de esperança, uma salvação que o espectador aguarda desesperadamente, porém, sabendo à partida que tudo é em vão. Sim, este é o tipo de obra que qualquer guia televisivo expõe o aviso do "anti-feel good movie", o cinema que reflete o quão frágeis nós somos, o quão vitimas somos dos nosso próprios objetivos profissionais, ao mesmo tempo, Antonio Campos dá-nos certas luzes sobre a condição e evolução da comunicação social, em certa parte, a forma como o jornalismo adaptou-se às audiências e não o oposto.

Existe aqui, evidente inspiração aos dotes dramáticos de Network, de Sidney Lumet, à hipocrisia implementada pela "caixinha mágica" e a sua interação com o exterior. Contudo, como biopic, se é que Christine anseia afirmar-se como tal, o filme tende em afastar-se desses lugares comuns de agenda award season, apostando da ênfase dramática e na criatividade desse sentido nas suas personagens. A depressão é um efeito secundário e o complexo desempenho de Rebecca Hall a principal medida.   

"Yes, but …"

Hugo Gomes

Anunciado próximo filme de Miguel Gomes

O cineasta português Miguel Gomes prepara-se para adaptar o romance "Os Sertões", de Euclides da Cunha, um livro seminal da Guerra dos Canudos. Este projecto terá semelhanças com a sua anterior trilogia, As Mil e uma Noites, ou seja, será composto por três partes, respeitando assim a própria estrutura do livro que é dividido pelos capítulos A Terra, O Homem e A Luta.

Gomes sempre expressava o desejo de filmar no Brasil, tendo considerado a terceira parte de As Mil e uma Noites, o seu filme mais "tropicalista", de acordo com o site Cine Festivais. O cineasta declarou então que foi na 30ª página do homónimo livro de Euclides da Cunha, que automaticamente mentalizou-se que aquela seria a sua futura obra. O diretor de som Vasco Pimentel, habitual colaborador de Miguel Gomes, estará a bordo do filme.

O argumento ficará a carga de Telmo Churro, Maureen Fazendeiro, Mariana Ricardo e do próprio realizador. Os Sertões terá produção de O Som e a Fúria, Shellac Sud e Komplizen Films.

A obra de Euclides da Cunha retrata um verdadeiro retrato do Brasil no fim do século XIX, abordando o conflito da Bahia, que suscitou a chamada Guerra dos Canudos. O confronto deu-se entre o Exército Brasileiro e o monarquista e fanático religioso Antônio Conselheiro. 

«Arrival» (O Primeiro Encontro) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Arrancando sob acordes de Max Ritcher e o seu On the Nature of Daylight, Arrival exibe a pior faceta de Denis Villeneuve, a ausência de personalidade. Depois de um grupo de obras que tem-se destacado pelas diferentes virtudes, tons e estilos, tendo como ponto alto o ainda fresco "Sicário", Villeneuve começa por fazer "maliquices", ou seja "caiu" na ideia, na possibilidade alguma de ser Terrence Malick. Se Malick já existe um, e mesmo assim, essa unidade chega-nos a irritar perante um estilo tão caoticamente ambicioso, quanto mais as imitações. Enfim, com filmagens de natureza, crianças e um coming-to-age em modo flash forward, tudo pontuado com a narração "filosófica" de Amy Adams, este é o nosso "primeiro encontro". Queremos sair, até porque este não foi o filme que nos prometeram, aquele dos trailers e das boas críticas vindas directamente de Veneza que nos falavam duma continuação intra-espécies de Sicário. Não, ao invés disso temos uma insuportavelmente e pretensiosa esquizofrenia.

Mas esperem, existe uma esperança ao fundo do túnel, é que depois de terminada as "maliquices", segue assim, a premissa, as invasões alienígenas e um Mundo em pleno estado de alerta perante estes "visitantes from outter space". A nossa Amy Adams é um linguista prestigiada (considera o português numa língua romântica e artística), que é abordada pelo Exército Norte-Americano para servir de ponte diplomática com estes "visitantes", que cujo grande obstáculo é a discrepante divergências entre as duas línguas e dicções. A nossa protagonista avança então com um elaborado plano para conhecer radicalmente o alfabeto destes, e vice-versa.

Em Arrival (não confundir com o filme protagonizado por Charlie Sheen), existe ecos desse Sicário - a força da protagonista, a mulher que quebra a fronteira e relaciona com um mundo inimaginável. A fórmula está aqui representada, só fica a faltar as particularidades desta nova aventura de Villeneuve. Enquanto uns, pasmaceiam perante o ritmo calmo e astutamente manipulado por Arrival, outros questionarão o próprio argumento que se assume "inteligente". Há dois anos consecutivos que levamos com filmes que tentam contrair esse mesmo estatuto, o de "muito inteligente para as audiências, e ao mesmo tempo entretenimentos de qualidade". Refiro a Interstellar e The Martian, duas obras que beneficiaram das ligações publicitárias da NASA, porém, este Arrival não possui o mesmo tratamento, mas a sensação é exactamente replicada.

Serão poucos que vão constatar as inverosimilhanças do argumento, principalmente no "motivo criado" para colocar a heroína na dita acção e assim avançar-se na intriga, da mesma forma que nos tremendos Deus Ex Machina. Soluções de última hora, que não são mais que meros "tapa-buracos" com graves aspirações a um determinado filme de Robert Zemeckis, sim, esse mesmo, O Contato. Se já Interstellar, de Christopher Nolan, ia buscar essa fonte, em Arrival a inspiração é mais que evidente, e o filme não consegue contornar isso, mesmo pretendendo seguir direcções menos identificáveis. Ah … já me ia esquecendo, sabem que mais? Eis mais um bajulador produto para os mercados chineses.

O que nos resta? Bem, este "lost in translation" tem a maior ambição de transformar-se numa "pescadinha com rabo na boca", até porque pensávamos que as "maliquices" tinham terminado no prelúdio. Pensávamos que sim … mas não é que Villeneuve recorda-se desse mesmo cosplay! E assim ficamos com um filme tecnicamente irrepreensível (nota-se a repescagem do compositor de Sicário, Jóhann Jóhannsson) , com desempenhos agradáveis dos seus actores e uma tendência de se perder gradualmente do seu carris. Esta é a provável grande desilusão do ano, a prova de que Denis Villeneuve está no "caminho certo" para virar tarefeiro em terras de Hollywood. 

Hugo Gomes

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